Por Gilberto de Abreu
editor do blog supergiba
Observando a sua produção, me parece evidente uma coisa: você não teme aventurar-se por diferentes linguagens. Estou enganado? Que desafios você encontra ao transitar em meio a tantos suportes?
Tenho grande prazer em utilizar novos suportes. No início da minha trajetória artística, eu parti da pintura, do suporte bidimensional. Essa é a minha origem. Na pintura, sempre busquei e ainda busco deixar visível o invisível, por meio da sobreposição de elementos que podem ser vistos através uns dos outros. Com o tempo, fui descobrindo como tirar proveito de determinados materiais, e com isso, otimizar a própria expressão. Assim, encontrei no papel de arroz uma leveza que só a tinta e a tela não me permitiam. Por meio da colagem deste material nas pinturas, deixo visível o que está por trás, e este procedimento me permite sobrepor diversas camadas de papel de arroz, e continuar olhando através delas. Assim, experimentar a colagem dos papéis em diferentes suportes, inclusive nas paredes do espaço expositivo, me possibilitou novas experiências.
Olhar através. Isso é possível também nas pinturas... Olhar através de frestas, de fendas, de persianas, de uma aguada de cor, ou mesmo de uma imagem que parece esvair-se...
... Nas primeiras pinturas a questão da cor era mais cumulativa: eu acrescentava pigmento à cor fabricada, numa espécie de alquimia e sobrepunha camadas e camadas de tinta para, num momento seguinte, subtrair: raspava, lixava, apagava, até encontrar uma situação do passado. Recentemente, venho trabalhando a tinta acrílica quase que como uma aquarela, muito aguada, justamente para incrementar a situação dos véus, das transparências e das sobreposições de cor e imagens.
Você parece interessada em recuperar a memória, em trazer ao presente algo do passado. Não necessariamente um resgate, mas um diálogo com a sua essência, suas origens.
Penso que não se pode separar passado e presente totalmente. Tudo se mescla. Estamos sempre voltando ao passado para seguir em frente, projetando o futuro no que fazemos hoje, no presente. A memória estará presente no meu trabalho. Não existe um tempo determinado. O tempo é o da minha experiência com a obra. É inegável, o meu interesse em resgatar uma história, seja a minha ou a do objeto com o qual desejo trabalhar.
Que pensamentos seu trabalho vem despertando em você ultimamente?
Penso hoje no papel que o ornamento desempenha no meu processo criativo. Percebo que ele se faz presente por diferentes motivos. É um elemento que se repete, e que ao se repetir se torna outra coisa, quase uma estampa. O ornamento, por outro lado, estrutura os espaços pictóricos da minha obra. A estampa que eu crio pode permanecer no plano bidimensional ou extrapolar os limites da tela e ganhar facilmente o espaço tridimensional. Imagino as minhas transferências ocupando todo o espaço expositivo: paredes, teto e piso, envolvendo totalmente o espectador. O ornamento transposto para o fino papel de arroz me remete à uma pele tatuada, que pode revestir qualquer suporte.
Muito já se falou sobre a morte da pintura. Mas em você a pintura parece estar viva, inclusive no plano tridimensional.
A pintura lida principalmente com a questão da cor e, o artista pode lidar com a cor de diferentes maneiras. Na minha opinião, enquanto houver artistas que trabalhem com ela, não creio na morte da pintura. Para mim, ela continua viva, inspirando e atraindo muitos artistas contemporâneos.
Como você observa as transformações do seu trabalho desde o começo até os dias de hoje?
A transformação faz parte do meu trabalho. Não tenho medo em permitir que um trabalho se transforme em outro, ou em vários outros, seja uma pintura, um desenho, uma instalação ou um site specific. Trabalhar em série me permite perceber claramente o caminho de transformação, de como um trabalho me leva a outro, deixando mais visível e claro o meu processo. No início, as cores eram mais intensas e puras, hoje, trabalho com tons rebaixados. Nas transferências, por exemplo, a partir de uma mesma matriz, posso repetir o procedimento diversas vezes, criando o apagamento da imagem e da cor. Cada migração que faço a partir da mesma matriz representa uma obra diferente, transformado.
O que devemos saber sobre as influências que regem o seu trabalho?
Fiz uma série de pinturas a partir de fragmentos de imagens de diferentes ornamentos como: azulejos de mesquitas, detalhes da arquitetura oriental, azulejos portugueses, motivos das porcelanas chinesas, antigas pinturas chinesas e japonesas e de elementos da arquitetura medieval. São obras que construí com estas referências, com pedaços de história, de influência tanto ocidental quanto oriental. A minha formação em arquitetura continua presente em meu processo de criação, mas, busco, sobretudo, criar espaços imaginários, por meio da sobreposição de diferentes elementos, que não precisam necessariamente ficar de pé ou ter uma coerência ou lógica.
Sem falar na conversa entre as cores...
Na minhas pinturas, a cor nunca sai pronta do tubo, é quase uma alquimia. Antes de começar a pintar, estudo e observo a tela em branco. Escolho as cores com as quais quero trabalhar, acrescento à tinta que vem pronta do tubo aqueles pigmentos que vão resultar numa cor particular. Crio uma combinação cromática, a partir de diversos materiais, como tinta, grafite, nanquim, guache ou carvão, que podem estar justapostos em uma obra, mas de uma forma que melhor se adapta à série que estou trabalhando. Todo trabalho exige um tempo de respiração, em que é preciso afastar-se dele e com ele dialogar.
A série você chama de Quase. O que ela representa em seu repertório de expressão?
Com a série Quase, desejo resgatar o aspecto lúdico na pintura, Algo que para mim na hora de criar é muito importante. Como eu me interesso pela questão da repetição, assumindo que o ornamento nada mais e do que um padrão que se repete, passei a produzir dois quadros concomitantemente. Assim, numa espécie de brincadeira de sete erros, peguei duas telas do mesmo tamanho, e trabalhei sobre elas com as mesmas cores, as mesmas transferências, os mesmos movimentos. Apesar da repetição do procedimento, o resultado foi diferente.
A coexistência desses dois trabalhos, e a certeza de que foram produzidos ao mesmo tempo, fazem deles um díptico, ou teriam cada um deles vida própria?
Sim, é um díptico, mas Isoladamente os considero igualmente potentes, um fortalece o outro. Eles têm vida própria. É instigante olhar os dois, e perceber as sutis diferenças que os mesmos contêm. A série Quase não se encaixa na lógica da imediaticidade, requer tempo para se perceber as diferenças.
O que a levou à faculdade de arquitetura, tendo visto uma infância tão próxima às artes?
Eu sempre me interessei por criar espaços e imaginava as pessoas circulando nestes espaços. Daí a minha escolha pela faculdade de arquitetura. A partir da atividade artística, procuro criar novos espaços, com imaginação e liberdade.
O que era uma inspiração para você?
A natureza me inspira, as criações do homem no âmbito da arquitetura e das artes me inspiram. Por exemplo, as fachadas repletas de azulejos da cidade de São Luís e da cidade de Porto me inspiraram para iniciar a série Arquitetura. Todo tipo de ornamento me inspira, desde as rendas de bilro ou bordados renscença do Nordeste às grades de ferro dos casarões coloniais antigos ou vitrais das catedrais góticas.
Muitos artistas vieram da arquitetura. E você é mais um exemplo. Seria esse um caminho natural?
Acho que cada vez mais esta fronteira entre arte e arquitetura deixa de existir. No meu caso, arte é liberdade. Nela, sou capaz de criar espaços imaginários, que não necessariamente precisam ficar de pé.
Como se apropriar de determinadas imagens e fazer delas algo próprio da sua linguagem?
As imagens se tornam minhas a partir do momento em que as elejo como parte do meu trabalho. Podemos chamar de apropriação ou de releitura. As encaro como um instrumento para a criação. Os azulejos, por exemplo, podem ser transportados para a superfície de uma tela, de uma parede, de um papel para colagem, assim como podem dar origem a um móbile. A instalação entre cacos e fragmentos me remete a uma brincadeira da infância. Criei um móbile feito com fragmentos de azulejos, pequenas peças pendentes e reluzentes que podem brilhar com a incidência da luz, ou mesmo projetarem-se em sombras, nas paredes.
De onde vem esse interesse pelos azulejos?
O azulejo me interessa por sua beleza, seu desenho, suas cores, seu brilho e pelo padrão matemático que se repete, em diferentes desenhos e motivos. Mas é também um motivo de ornamentação que começou no Oriente e migrou para o Ocidente.
No seu fazer criativo, a repetição é um processo muito recorrente. O que tem a dizer sobre isso?
Nas pinturas, ao transferir as imagens, eu as fragmento, e a partir da repetição desse ato surgem novas estampas, diferentes das originais, como uma colcha de retalhos, um patchwork. Gosto de pensar também na ideia de transferência. Olhar algo que pode ser transformado em outra coisa de acordo com a obra, a partir de diferentes combinações. Azulejos com figuras, com letras, com alguma coisa escrita, uma caligrafia. Tudo isso, reunido e sobreposto, acaba originando uma estampa original. Existe a questão da sobreposição e da transparência, quando posso tanto sobrepor ou justapor diferente elementos de diferentes procedências e estilos em um mesmo trabalho, podendo causar um estranhamento.
Como se sente em meio ao que é bi e tridimensional?
O envolvimento com o trabalho é praticamente o mesmo, portanto não há tanta diferença assim no fazer de um e de outro. Levar o trabalho para um determinado espaço nos permite experimentar novos resultados, a relação com a obra no contexto espacial é outra experiência. O ornamento, quando agregado ao espaço, é algo que me estimula a pensar em uma instalação ou site especific. Com as obras feitas com os papéis, busquei a situação de olhar através, algo similar quando diante do móbile entre cacos e fragmentos. Sentir e observar o mundo através dos fragmentos, dos cacos ou dos pedacinhos de papéis colados.
Fale um pouco sobre sua ideia de transparência e sobreposição.
Tem tudo haver com a minha busca de olhar através e tentar tornar visível o invisível. Olhar através das grades, das persianas, das aguadas e dos véus de cor, da imagem que se apaga, simbolicamente, desejo representar a efemeridade das coisas, o contraponto entre o que é perene e transitório. Enfim, a busca de um entendimento entre aparência e essência das coisas, do mundo, numa tentativa de me compreender melhor e do mundo que me cerca.