Transpaisagens
A exposição consiste em uma série de trabalhos sobre a paisagem. O processo criativo de Daniela tem como princípio a transferência. Transferência ou transfer é uma antiga técnica de impressão e reprodução de imagem. Inicialmente ligada a um processo de decalcar (do francês decalquer) designs para cerâmicas e porcelanas, o termo adquiriu significações várias em diferentes campos como, por exemplo, na psicanálise. No que concerne a arte a palavra transfer ou decal (de decalcomania como também ficou conhecida) sempre envolve o deslocamento de uma imagem para uma nova base ou suporte. Em certos aspectos, iguala-se a monotipia - na produção de uma única imagem. No entanto, tanto na transferência quanto na monotipia, a imagem pode ser “puxada” quantas vezes sejam possíveis, desde que, na matriz, haja ainda tinta suficiente para ser feita uma nova migração. As cópias resultam em imagens fragilizadas, menos intensas, desmaiadas, chamadas de “fantasmas”. É dentro desses primeiros parâmetros que a artista trabalha, mas, Daniela vai associá-los a princípios contemporâneos como a apropriação e a intertextualidade. Em Transpaisagens os trabalhos não se encaixam na lógica da imediaticidade. Tudo aqui requer tempo. Tempo para perceber as passagens, as transições, as construções das imagens. As obras são como palimpsestos. O papel de arroz, com sua textura delicada e transparente, permite guardar, na sua pele, impressões previstas e imprevistas, acasos inerentes ao procedimento. Conhecendo os percalços do ofício a artista trabalha na incorporação desses “riscos” como parte do potencial poético de seu processo artístico. Transforma borrados em penumbras de passagens animando, na paisagem, uma atmosfera de tempo expandido.
A idéia de lugar é problematizada: existe este lugar? É aqui? Ou é lá? A artista une o real e o imaginário, a imagem apropriada com a imagem desenhada criando um mundo surpreendente, com estranhas perspectivas. Por vezes esse procedimento de fusão aparece pela combinação de duas imagens sobrepostas, outras pela linha que costura uma nova silhueta de paisagem - são imagens de imagens, inventadas, recontadas, revestidas, recordadas, renarradas, traduzidas e presentes nas linhas e tons que reverberam, no papel, como ecos ‘fantasmas” da memória.
Nancy Betts
Out. 2010
Um lugar além da precisão
A obra de Daniella reflete uma busca tortuosa e, por isso mesmo, rica e interessante, que começou nos anos 80 com a arquitetura. Durante mais de uma década Daniella explorou o que pôde nesta área – de projetos à construção -- trabalhando inclusive na Alemanha. A arquitetura aguçou seu olhar para o detalhe, a idéia de espaço e concepção. Mas faltava na arquitetura um elemento que viria a se revelar vital na trajetória da artista: a abstração. Isto é, o devaneio. Simplesmente, deixar a sensibilidade criativa fluir, explorar uma nova linguagem sem ter que recorrer às medidas e cálculos precisos de uma arquiteta.
A arte surgiu assim na Daniella. Ou melhor, Daniella se encontrou assim na arte, de uma necessidade de ir além da precisão. O resultado, hoje, está aí: um conjunto de trabalhos em que ela se apropria, brinca e experimenta com seu o passado – a arquitetura – e o transforma em algo novo, poético e multifacetado. Assim, nas obras « Claustro I e Claustro II », o azul inicialmente vibrante de azulejos religiosos é reproduzido várias vezes na tela e vai se apagando, como vestígios de um passado de arquiteta que artista parece querer – mas ao mesmo tempo não quer – apagar.
Esse processo criativo de apropriação, transferência e transformação ganhou agora um contorno novo e revelador. Seu último trabalho, “Transpaisagens”, em que reproduz em folhas de papel de arroz a paisagem bucólica de montanhas na China, é uma tentativa de resgate da sua própria história. A artista carioca é filha de uma amazonense com um chinês. Seus avós radicaram no Brasil nos anos 50, fugindo da guerra e da perseguição do regime comunista de Mao Tse-Tung.
Daniella se banhou na cultura de uma China distante e, ao mesmo tempo, muito presente. Sua avó, Liu Yee Yu Hua, por quem ela tinha verdadeira admiração, vivia no Humaitá e mal falava português.
Conheci Daniella ainda criança, nos anos 60. Caminhávamos juntas da escola até o ponto de ônibus junto à casa da avó, que costumava nos receber com comida chinesa cozida a vapor em recipientes de bambu. Para mim, ela era apenas Daniella, minha amiga. Desconhecia a história dramática do exílio da família. O avô de Daniella, Liu Si Chang, era um diplomata da China nacionalista de Chiang Kai-shek. Veio ao Brasil a trabalho.
Derrotados pelos comunistas na guerra civil, os nacionalistas e os que serviam o regime de Chiang Kai-shek foram perseguidos por toda China. Mil novecentos e quarenta e nove – ano da fundação da República Popular da China – marcou também o início do périplo da família de Liu Si Chang rumo ao exílio. A escolha foi feita: Rio de Janeiro, então capital do Brasil. O pai de Daniella, Liu Wu, foi colocado sozinho num navio, aos 12 anos de idade, rumo ao Brasil, em 1950. Seu irmão mais velho veio um ano depois. E a mãe (a avó da artista) só conseguiu chegar dois anos depois.
Num período de sua vida, ainda arquiteta, Daniella buscou resgatar a herança asiática estudando chinês. Mas foi na arte que ela resgastou. Em “Transpaisagens”, a artista mergulhou pela primeira vez na sua história, sem ter plena consciência do que estava fazendo. Ela contou que trabalhava intensamente com azulejos religiosos na obra «Arquitetura » quando sentiu vontade de « descansar ». Ela abriu um livro de pintura chinesa antiga, escolheu a paisagem bucólica de uma cadeia de montanhas na China, fez uma cópia Xerox, depois outra, mais outra e começou a brincar num papel de arroz usando a técnica do « transfer ». Isto é, transferindo a imagem como um decalque, com a ajuda de solvente.
“Neste momento, não parecia uma obra. Mas na medida em que fui transferindo a imagem, as linhas das montanhas se repetiam quase como uma caligrafia. Visualmente, a imagem me trouxe uma paz”, disse. De tanto ser copiada e recopiada, as montanhas foram se apagando, como a memória, o tempo, o envelhecimento, o efêmero, beirando a transparência. Como se nela, se apagasse também o passado doloroso de uma família.
Para mim, esta obra não aconteceu por um acaso. Em 2009, acompanhei Daniella na sua primeira viagem à China. Nas ruas, nas lojas, na simples estampa de um tecido, quase tudo, para ela, transpirava arte. Olhando para os primeiros trabalhos de Daniella, marcados pela utilização intensa da cor, “Transpaisagens” é, sem dúvida, sua obra mais transparente e serena. Uma nova fase no plano artístico e – quem sabe – no campo pessoal.
Deborah Berlinck
Setembro, 2010
Entre cacos e fragmentos
Em sua primeira exposição individual Daniella Liu Herzog nos mostra um trabalho pictórico em franco desenvolvimento. Para quem acompanhou sua obra nos últimos anos, é notável observar como Daniella tornou sua pintura mais transparente, com uma gama cromática mais refinada, exibindo uma composição mais complexa. Sua formação em arquitetura se revela nestas obras pelo uso recorrente de motivos arquitetônicos – janelas, azulejos. Motivos que já foram utilizados de maneira sistemática na pintura moderna e contemporânea, mas que reaparecem aqui com uma vitalidade jovial. Daniella realiza operações plásticas que fazem destes motivos não apenas jogos retóricos, mas antes, pretextos para se continuar pintando em busca de um sentido.
O uso do transfer, procedimento inaugurado por Rauschenberg no final da década de cinqüenta, faz com que as imagens reproduzidas precariamente apareçam como vestígios de memória, rejuntando os cacos de azulejos, Daniella realiza paisagens arquitetônicas. Suas frisas remetem também à tradição mediterrânea decorativa, que advém do aspecto ornamental da cultura árabe. Neste caso, o aspecto divino se encontra não na imitação da natureza, mas nos mínimos detalhes de uma caligrafia que se faz desenho.
Lembro-me de como foi difícil para Daniella superar o eterno conflito entre desenho e cor, pressentido por Matisse no começo do século vinte. Conflito que surge porque os campos cromáticos não se subjugam mais à tirania da linha. A cor não é mais vista pelos pintores modernos como uma qualidade secundária, mas algo possível de ser formalizado a partir dos jogos cromáticos, torna-se efetivamente um meio de expressão. Daniella soube tirar frutos desta conquista, de forma que os matizes cromáticos parecem escapar das estruturas arquitetônicas, em busca de uma autonomia espacial não mais pautada pela perspectiva.
A invenção da colagem propiciou um novo modus operandi para os pintores. Ao invés de reproduzir a realidade, os artistas começam a criar novas realidades a partir de fragmentos de objetos ligados ao mundo cotidiano – jornais, partituras musicais, que saem do seu contexto de uso para serem reaplicados na superfície pictórica devido as suas qualidades gráficas. O universo pictórico passa a sintetizar elementos díspares, em busca de uma nova forma harmônica. Nesse sentido, o pedaço de jornal deixa de ser meramente jornal para se tornar uma forma recortada que se assemelha a um violão, etc. Esta região ambígua de ser uma coisa e outra ao mesmo tempo foi explorada pelos artistas de vanguarda, a começar por Picasso. Este procedimento revela modo compositivo que está presente na pintura, mesmo quando não recorre diretamente à colagem.
Um quadro não precisa ter colagem para evocar uma fragmentação do mundo. Digo isto porque acredito que os melhores trabalhos de Daniella surgem quando a colagem desaparece na própria gama pictórica, quando Daniella junta os cacos e fragmentos, em nome de uma nova forma. Suas janelas não evocam apenas um mundo exterior, pois ao revelarem sua estrutura, também aludem o espaço interno do observador.
Ao invés de criar imagens inéditas, o artista de hoje trabalha com imagens preexistentes. Faz uma colagem de imagens que remetem a uma experiência distinta do espaço e do tempo. Embora Daniella esteja no início de uma carreira dedicada às artes, e em especial à pintura, seus trabalhos revelam desde já um frescor difícil de ser encontrado atualmente. Daniella ainda consegue exibir um joie de vivre na pintura, o que não deixa de ser um alento para os que acreditam na capacidade da pintura poder falar um pouco do mundo.
Marco Giannotti
Maio, 2006
